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Psiquiatria e Espiritismo

A partir de meados do século XIX, o intelectual francês Allan Kardec, pseudônimo do Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, torna-se um dos maiores pioneiros na pesquisa de fenômenos psíquicos. Entre diversas hipóteses levantadas para a explicação de tais fenômenos, Kardec coloca a possibilidade do intercâmbio entre entidades extracorpóreas e seres corpóreos, ou seja, desencarnados e encarnados. Em tal fenômeno, Kardec descortina uma faculdade inerente a todo indivíduo, a mediunidade. Como resultado de muitos anos de pesquisa realizados, ele constata a contínua influência dos Espíritos sobre os encarnados. Nem sempre essa influência é benéfica e quando não é desta forma, fala-se em obsessão.

A questão referente à existência ou não dos espíritos, a mediunidade e a obsessão tem sido tema de embate não só entre os religiosos, mas também, e, sobretudo, entre a comunidade científica ortodoxa e o Espiritismo, bem como também pesquisadores não reducionistas como os ligados à Psychical Research. No Brasil, em particular, maior país espírita do mundo, o embate entre Psiquiatras e Espíritas na primeira metade do século XX foi acirrado. Para se ter idéia sobre a disputa entre ambos, o Espiritismo, assim como a Sífilis e o Alcoolismo, era tido como uma das maiores causas de “loucura” daquele tempo, principalmente ao se observarem fenômenos de “transe e possessão”. Assim, muitos defendiam que o Espiritismo deveria ser erradicado e já se falava em “loucura espírita”.

Ao longo do tempo tem-se que a Psiquiatria, por um lado, legitima-se ao se inserir e conquistar seu espaço no meio médico-acadêmico. Já, o Espiritismo se legitima, basicamente, no campo religioso. Embora isso, dezenas de Hospitais Psiquiátricos Espíritas surgem, buscando o diálogo entre um e outro, ampliando a compreensão dos transtornos mentais à luz dos fenômenos mediúnicos e obsessivos. Neste aspecto, destaca-se o grande trabalho do psiquiatra Inácio Ferreira no Sanatório Espírita de Uberaba entre os anos 1930 e 1960.

A Psiquiatria dos tempos modernos, em especial a dita Psiquiatria Transcultural, tem buscado uma maior compreensão daquilo a qual considera como fenômenos culturais ou religiosos. É importante ressaltar que tal compreensão não se amplia ainda, à discussão, de fato, da existência de espíritos, sua real comunicação ou obsessão como supracitado. Haja vista evento realizado pela Associação Mundial de Psiquiatria entre 4 e 6 de Novembro de 2010 na cidade de Ávila, na Espanha. O simpósio cujo tema central foi “International Symposium on Psychiatry & Religious Experience” se permitiu levantar questões muito interessantes e relevantes no diálogo incipiente e construtivo entre Psiquiatria e Religião/Espiritualidade.

Isso não significa que a Psiquiatria, como uma das vertentes das Ciências Médicas e Psíquicas, já admita a possibilidade da mente ser de natureza espiritual, ou a existência de espíritos, ou seja, como não sendo um produto da atividade cerebral. Daí, a impossibilidade de se afirmar que fenômenos como “transe e possessão”, termos utilizados na Classificação Internacional de Doenças (CID 10) da Organização Mundial de Saúde (OMS), sejam considerados como consequentes a ação de espíritos.

A CID 10 classifica como transtornos dissociativos (ou conversivos) os capítulos em F44 que estão assim classificados:
CID 10 F44.0 Amnésia dissociativa
CID 10 – F44.1 Fuga dissociativa
CID 10 – F44.2 Estupor dissociativo
CID 10 – F44.3 Transtornos de transe e possessão
CID 10 – F44.4 Transtornos dissociativos do movimento
CID 10 – F44.5 Convulsões dissociativas
CID 10 – F44.6 Anestesia e perda sensorial dissociativas
CID 10 – F44.7 Transtorno dissociativo misto (de conversão)
CID 10 – F44.8 Outros transtornos dissociativos (de conversão)
CID 10 – F44.9 Transtorno dissociativo (de conversão) não especificado

Apresenta o código F44.3 com os seguintes termos: “Estados de transe e de possessão”. Tais estados são considerados como “Transtornos nos quais há uma perda do senso de identidade pessoal e da consciência plena do ambiente. Inclua aqui apenas estados de transe que são involuntários ou indesejados, ocorrendo fora de situações religiosas ou outras aceitas culturalmente”.

O código F44.3 é um dos subitens do código F44 – “Transtornos dissociativos (de conversão)”. Conforme a CID 10, “Os transtornos dissociativos ou de conversão se caracterizam por uma perda parcial ou completa das funções normais de integração das lembranças, da consciência, da identidade e das sensações imediatas, e do controle dos movimentos corporais (…)”.

Fica claro que dentro da classificação diagnóstica, a psiquiatria, através da CID-10, não se ocupa da etiologia do problema e sim, de sua expressão clínica, classificando-a como transtorno.

O fato de a classificação diagnóstica dizer que o “sintoma deve ocorrer fora de situações religiosas ou outras aceitas culturalmente…” também não quer dizer que a psiquiatria, ou a medicina, reconheçam as manifestações em contextos religiosos como de natureza espiritual. Simplesmente a CID não se ocupa desse universo de situações, focando-se especificamente no campo do transe involuntário ou indesejado e que se intrometam nas atividades costumeiras, ou seja, ocasionando sofrimento e perturbação mental.

Além disso, para a imensa maioria dos psiquiatras estes quadros são devidos à manifestação de conteúdos inconscientes dos pacientes nos quais a psique se “desagrega” ou “dissocia” em mais de um núcleo. Mesmo nós espíritas não podemos simplificar e dizer que todo transtorno de transe e possessão seja de natureza obsessiva. Precisamos considerar a possibilidade de ocorrência dos fenômenos de natureza anímica, tão bem estudados e conhecidos em nossos estudos Espíritas.

Também, vale ressaltar que embora a OMS tenha reconhecido que a espiritualidade seja um componente da qualidade de vida, ainda não incluiu o bem estar espiritual na definição de saúde, que continua desde 1948 como “Health is a state of complete physical, mental and social well being and not merely the absence of disease o (WHO Constitution).” – http://www.who.int/hac/about/definitions/en/

Nesse contexto, a Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil) percebe que os manuais diagnósticos ainda não validam os fundamentos Espíritas, no entanto, passam, aos poucos, a ampliar o espectro fenomenológico em suas classificações e a não considerar os transes mediúnicos como necessariamente patológicos.

Dentre os papéis do mais novo Departamento criado na Associação Médico-Espírita do Brasil, o departamento de psiquiatria, destaca-se a importância de colaborar na valorização dos aspectos religiosos/espirituais como fatores culturais de extrema importância para a Saúde Mental e levar à compreensão dos fenômenos psíquicos/mediúnicos como faculdades inerentes e naturais ao Ser. Homogeneizar a linguagem e somar conhecimentos para criar uma sólida integração entre Psiquiatria e Espiritismo, com suas respectivas contribuições, é de extrema relevância no movimento Médico-Espírita.

Departamento de Psiquiatria / Saúde Mental da Associação Médico-Espírita do Brasil

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